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Com o advento do Coronavírus, ações imediatas tem ocupado o dia a dia das empresas (como não havia de se deixar de ser). Um olhar um pouco mais aprofundado sobre os impactos futuros do Covid-19 no mercado e atuação das empresas, entretanto, precisa ser vista.

É certo que o mundo pós Covid-19 não será o mundo que se adentrou. Será que estamos nos preparando para ele, ou somente acionando as ações emergenciais? O quanto estamos cientes das alterações comportamentais, e o quanto elas fazem parte de nosso radar? As tendências em que sempre nos baseamos continuam válidas como premissas de negócio?

Buscando dar uma luz a algumas destas questões, listamos abaixo 10 tendências que já vinham sendo debatidas e que acreditamos ser um reforço

Listamos abaixo algumas das tendências que, neste momento de crise, recebem um peso extra, com aceleração de sua adoção e impactos, em razão do confinamento e das mudanças de hábitos e/ou valores tidas pelo consumidor

1) DIY

O movimento de “Faça você mesmo”, do inglês “Do it yourself”, começou na década de 70 como um movimento anti-consumo, como rejeição a ideia de comprar um produto de um ente terceiro, mas com o passar dos anos tornou-se algo bem maior.

A ideia de produzir seu próprio item começa a ser valorizada e difundida por todo mercado, diante de um encaixe preciso dos novos comportamentos humanos e suas novas valorações, como personalização, diferenciação, prazer de realização/criação, experimentação, gourmetização, dentre outros relacionados ao emocional laboral.

O que antes era restrito a itens de reforma, móveis, alimentação, começa assim a adentrar todos os mercados e segmentos mundiais, com reforço a partir de 2000. Cada vez mais, as pessoas de todo mundo produzem bens e serviços de maneira individual ou junto de suas pequenas comunidades e famílias. Uma ampla variedade de bens, como roupas, calçados, joias, mobiliários, alimentação funcional, software e, até energia, começam a ser produzidas em escalas menores e particulares.

Neste cenário, as fronteiras entre consumidores e produtores desaparecem. A ênfase é no processo criativo dos indivíduos para a formação de sua identidade e a redescoberta das tradições locais antes relacionadas ao “artesanato”.

O movimento “DIY” sofre influência direta do COVID-19, a medida que pessoas e processos produtivos se misturam diante dos confinamentos e restrições de compra. O prazer de “fazer você mesmo” começa a ser de novo inserido no dia a dia do consumidor, bem como os benefícios trazidos pelo modelo (financeiros e emocionais).

2) Círculo de consumo local (“Local circle”)

A valorização dos produtos de pequenos produtores já vinha há muito sendo vista, principalmente nos mercados relacionados ao ramo alimentar, pendentes de uma cadeia de produção dependente dos pequenos produtores rurais. Muitos supermercados internacionais e nacionais adentraram nesta causa, com posterior adoção do discurso e ações pelas demais indústrias, dentre as quais se destaca a de moda.

A ideia de “círculo de consumo local” está direcionada a promoção do consumo de itens cultivados localmente e seguros, que incentivam uma forma sustentável de cadeia ​​e ajudam os pequenos a preservar sua economia. O “local” conecta as muitas pessoas envolvidas na produção de em uma maneira interdependente, holística e colaborativa, palavra de ordem frente a esta nova economia.

As ações de produção local e incentivo dos círculos próximos devem sofrer reforço frente a crise econômica trazida pelo Covid-19, com posterior impacto e reforço no comportamento de compra de todo mercado. Já se vê diante das redes sociais uma maior preocupação com a questão no forte debate e causas levantadas em prol da sustentabilidade financeira dos pequenos comerciantes e empreendedores regionais. Diversas ações estão sendo realizadas pelos próprios consumidores, que entendem cada vez mais o seu papel de modo colaborativo.

3) Compartilhamento

Existe um número crescente de movimentos, iniciativas, empreendedores e novos modelos de negócios que visam facilitar a sustentabilidade na maneira como consumimos e vivemos. Questões de consumo consciente, atreladas a comportamentos de identificação com grupos (o ser humano em sua individualidade, mas como parte de grupos e da sociedade), vem crescendo nos últimos anos pela movimentação de valores das novas gerações.

Um exemplo mais claro disso é justamente a alta demanda do consumo colaborativo (compartilhamento, troca etc.), que revela uma mudança nas preferências de “ter o bem” para “ter acesso ao bem”. As iniciativas de transporte compartilhado, agricultura urbana e cultivo da própria comida, crescimento das modalidades de aluguel, serviços de assinatura, demonstram bem este cenário.

Para os consumidores, consumo colaborativo significa conveniência, inovação, moedas locais e virtuais, comunidade e também valores verdes. Todos comportamentos reforçados em razão do confinamento e novas experiências trazidas pelo COVID-19.

As novas valorações de lados humanos e conscientes, aceleram o desenvolvimento e adoção de modelos de negócios compartilhados, que deverão prevalecer no novo mercado e mundo que está sendo criado.

4) Downshifting e Slowlife

O movimento de “reduzir a marcha”, conhecido como “downshifting”, é uma tendência social para uma vida mais simples, é o enfatiza o comportamento de busca por equilíbrio entre lazer e trabalho, entre a aceleração do cotidiano, baseada no racional econômico de busca constante de benefício/lucro, e as valorações das relações. O foco está nos objetivos da vida como realização pessoal e construção de relacionamentos e não na busca do sucesso econômico sozinho e a qualquer custo.

Atrelado a esta tendência, segue o movimento de ter uma vida mais tranquila e arraigada em coisas de real valor, o “Slow life”. O grande fundamento do “Slow Life” é a alteração do ritmo da vida e a eliminação de tudo aquilo que pode ser considerado como não essencial.

A nova realidade de vida e o impacto do isolamento no modo como as pessoas se relacionam entre elas, com ambiente e “coisas”, faz com que pensamentos a respeito de si mesmos e grandes objetivos de vida sejam repensados.

5) Segurança e Transparência

O acesso a segurança daquilo que consumimos é um requisito básico para a sociedade e para a sobrevivência humana. Questões como garantia da segurança alimentar, medicamentosa, higiene de locais e trabalho, são reforçadas e cada vez mais valoradas.

O medo gerado pela doença ultrapassa as barreiras da própria pandemia (em muito já grave) e gera sensações de insegurança com relação a vida, economia, conduta, consumo mesmo pos-estabilidade. A insegurança, por sua vez, modifica comportamentos e ações, com a restrição de comportamentos até então adotados pelo medo endêmico gerado.

Neste cenário, a segurança e a transparência com relação as ações e decisões se mostra primordial para quebrar uma lógica de receio e anti-consumo, de forma a garantir que a relação das marcas com o consumidor se mantenham. Cabe as empresas se posicionar diante de seus assuntos principais, reforçando a transparência de sua comunicação e acolhendo o medo daqueles que estão “machucados”.

Certificações, labels, selos e outras características de garantia tendem a exercer uma maior influência em razão das questões expostas, com influência direta na percepção de segurança e confiabilidade das marcas.

6) Interação remota

Ser capaz de interagir com outras pessoas de uma distância como se estivessem fisicamente presentes e controlar coisas, máquinas e processos tem sido um ideal para empresas e especialistas em comunicação e tecnologia. O avanço das ferramentas, sistemas, formatos de interação é notório na última década, e acumulam tendências de #digital, #omnichannel, #moretechmoretouch, #socialmedia, e uma série de outras.

À medida que as interfaces melhoram, a multiplicidade de modos distantes de interação torna-se uma característica principal de comportamentos de rede. A interação deixa de depender do lugar e passa a exercer um caráter de conexão ampliada com o mundo. A independência dos indivíduos dos aspectos de locomoção, por exemplo, abre possibilidades de trocas e estabelecimento de novas parcerias e conexões.

Toda essa tecnologia e modo novo de vidam, que vinha aos poucos sendo adotada, acelera seu movimento de implementação. As pessoas, em razão do confinamento, passam a ter que adaptar seus estilos de vida a questões como home office, interação com ferramentas digitais de trabalho e interação com a sociedade, utilização de formas digitais de compra. Comportamento este que permanece em razão dos aprendizados e benefícios tidos. Se não no todo, pelo menos em algumas particularidades, que devem ser mantidas.

7) Mudança na estruturação das cadeias

A cadeia tradicional de consumo é baseada nos conceitos básicos de economia de produção e distribuição. “O que produzir?” e “Como disponibilizar?” sempre foram conceitos chaves da economia, como definição de “elos” representantes de cada um destes papéis.

A transformação digital vivida pelo mercado desde 2000 fez com que os conceitos básicos se mantivessem, mas os papéis se misturassem na busca de uma solução ótima e conveniente para o consumidor, otimizadora de a sua utilidade.

Produtor, Indústria, Distribuidor e Varejo cada vez mais redesenham suas operações, com novos modelos de cadeia integrada, e rediscussão das melhores formas de produção, transformação, armazenamento, distribuição, venda, disponibilidade e acesso ao consumidor final.

A restrição de consumo faz com que o alcance de mercado e o acesso por consumidor em comum se torne mais e mais necessária, intensificando este movimento de reorganização na busca da entrega. Utilidade e conveniência, que antes eram palavras de ordem, ganham reforço e novo significado.

8) Influências peer-to-peer

As influências das redes sociais e dos comentários em rede, com conselhos de vida e de compra, são reflexo de algumas das tendências anteriores tratadas, mas merecem especial destaque.

As redes de pessoas em todo o mundo são o fator dominante no consumo democratizado e influenciam em muito as decisões de compra de produtos e serviços. Plataformas digitais concorrentes e complementares fornecem acesso a informações detalhadas do produto e expõe de maneira transparente as experiências dos indivíduos.

Reflexo direto da segurança e transparência e das novas interações, as influências peer-to-peer são em muito reforçadas em um cenário Pos-crise, em que confiança e instabilidade tomam a frente em relações até então não exploradas.

9) Parceria

O estabelecimento de parcerias não é novidade para o mercado e sempre esteve presente no desenvolvimento de qualquer negócio. Dentro do mundo do Mercado de Consumo, a parceria ganha força a partir da necessidade de aproximação entre os players da cadeia da busca de soluções para um mesmo consumidor, empoderado e “puxador” da demanda. É a ideia central do “Customer Centricity”, com o consumidor no centro influenciando produtos, cadeia, formatos, canais e todos os tipos de interações.

Em ambientes e mercados competitivos, o avanço da empresa e aquisição de maior participação de mercado, quase sempre, se dá com parcerias, e não de maneira isolada. É preciso estar junto para ganhar sinergias e otimizar resultados. Em mercados maduros, em que a competição prevalece e o crescimento não se dá de forma espontânea, e sim em cima da concorrência, estabelecer as corretas parcerias se faz fundamental para qualquer espécie de avanço. As parcerias passam a exercer, nestes mercados, papéis de solução e não somente de colaboração.

No cenário econômico desafiador trazido pelo Corona Vírus, o pensamento não é diferente. Empresas precisam se unir para potencializar mercado e atender a um mesmo consumidor de maneira criativa, integrada e única. “Parcerias” começam a ser estabelecidas e mercados se modificam diante destas novas composições.

10) Digitalização

Decorrência lógica de todas as alterações acima, a digitalização sofre aceleração de anos, em meses. O mundo virtual e real se funde cada vez mais, em processos de automação, networking, gerenciamento da cadeia de suprimentos, relação com ambientes e sociedade, plataformas de compras multimídia, abordagem individual e personificada (embora em massa), prateleiras virtuais por preço comparação, facilidades de entrega e acesso irrestrito a produtos.

Se é certo que o digital já se apresentava como uma tendência e desafio, agora ele se torna mais do que uma necessidade inequívoca das organizações de que alguma maneira não adentraram neste formato. E não mais pelo caráter de inovação, até então buscado, mas como uma resposta as alterações de tudo aquilo que como consumo vem sendo buscado.

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